Oásis Opus Solis

Arquétipos Thelêmicos

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

 

Introdução

A palavra arquétipo vem do grego (arché, antigo) que significa modelo que se utiliza como exemplo para um determinado tipo de padrão.

Por exemplo: O arquétipo do herói: o que ele nos traz a mente? Não é aquele que nasce com algum dom especial, mas que deve ser trabalhado em treinamento e batalhas para superar os obstáculos da vida?

Podemos aqui termos uma noção de que arquétipos são símbolos tanto do consciente quanto do inconsciente coletivo, Jung se referia a uma divisão na psique humana sobre os arquétipos, sendo essa divisão entendida em Eu, Consciente coletivo e Inconsciente coletivo.

Em a Natureza da Psique, Jung nos lembra: “Todas as ideias e representações mais poderosas da Humanidade remontam aos arquétipos” ou seja, aos símbolos.

Os arquétipos são marcas psíquicas das vivências como os contatos com os fenômenos naturais, o surgimento do sol, da lua, travessia de rios e mares, entre outras coisas.

Assim como o homem atual herdou toda uma evolução biológica, Jung diz que o Homem também herdou uma evolução psíquica.

Seja qual for sua origem, o arquétipo funciona como um nódulo de concentração de energia psíquica.

Outro ponto válido em ressaltar é que os arquétipos só se manifestam através da observação e experiência.

O inconsciente coletivo é constituído pela soma dos instintos e dos seus correlatos, os arquétipos. Assim como cada indivíduo possui instintos, possui também um conjunto de imagens primordiais.

Os arquétipos foram originados através das impressões superpostas de vivências da raça humana em incontáveis vezes no transcorrer da sua evolução e história.

Todas as ideias e representações mais poderosas da humanidade remontam aos arquétipos. Isto acontece especialmente com as ideias religiosas. Mas os conceitos centrais da Ciência, da Filosofia e da Moral também não fogem a esta regra. Na sua forma atual eles são variantes das ideias primordiais, geradas pela aplicação e adaptação conscientes dessas ideias à realidade, pois a função da consciência é não só a de reconhecer e assumir o mundo exterior através da porta dos sentidos, mas traduzir criativamente o mundo exterior para a realidade visível.

Os Arquétipos em Thelema

Os símbolos acompanham as etapas do indivíduo, se baseando em arquétipos que iram representar o inconsciente, nesta situação que o indivíduo é chamado para uma “discussão’’, através de imagens e sonhos.

A importância do símbolo é a de atingir o arquétipo, se não o atingir não se tem a atitude simbólica, não se chega ao arquétipo que é o seu objetivo central de explicação. ‘’um símbolo não traz explicações, impulsiona para além de si mesmo na direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscurante

Pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de maneira satisfatória’’.

O conceito de atitude simbólica pode ser entendido como o ato de falarmos por exemplo de sonhos, de como devemos olhar para os sonhos. Ou no processo de amplificação, a técnica de Imaginação Ativa, que foi inventada a mais de cem anos, sendo uma técnica dialética, um contato com os conteúdos inconscientes em conjunto com um trabalho através das imagens.

É uma consciência elevada de uma forma de contemplação. Semelhantes ao povo Egípcio, que obtiveram uma atitude simbólica, uma consciência que busca outras possibilidades de sentido das coisas, um envolvimento com o ego e respeito ao mistério. A atitude simbólica é também considerada uma atitude de síntese, pois quanto mais nos aproximamos da compreensão e do possível entendimento do simbolismo arquetípico mais próximo estaremos de nossos conteúdos inconscientes e mais conscientes de nós.

Dois arquétipos específicos aos quais Carl Jung dá atenção são de especial importância para essa discussão. O primeiro desses arquétipos – ou, mais precisamente, as manifestações arquetípicas – é o da centelha, o astrum, a estrela ou a cintilação, que é essencialmente uma manifestação do arquétipo do “eu”. O segundo desses arquétipos é o do céu noturno, que é essencialmente uma concepção simbólica da totalidade de todos os arquétipos, ou a totalidade do inconsciente.

Em Liber AL vel Legis temos: Todo homem e toda mulher é uma estrela.

Quase imediatamente temos uma identificação do eu de cada indivíduo humano com a figura simbólica de uma estrela. Em seu trabalho sobre a natureza da psique, Jung explica como o simbolismo alquímico é uma fonte importante de expressões simbólicas de conteúdos inconscientes da psique.

Portanto, esta afirmação de cada homem e mulher sendo uma estrela está usando um símbolo arquetípico comum do “eu” completo e, assim, identificando cada pessoa com “a Cintilação Única”, “a Mônada e o Filho”, que indicam a Divindade.

Jung continua: “Essa luz é o lumen naturae que ilumina a consciência, e as cintilações são luminosidades germinais que brotam da escuridão do inconsciente. Dorn, como Khunrath, deve muito a Paracelso com quem ele concorda quando supõe uma “invisibilem solem plurimis incognitum” no homem (um sol invisível desconhecido por muitos). Também, ‘Sol est invisibilis in hominibus, in terra vero visibilis, tamen ex uno et eodem sole sunt ambo‘ (O sol é invisível nos homens, mas visível no mundo, mas ambos são o mesmo sol). Assim, o único arquétipo enfatizado por Khunrath é conhecido também por Dorn como o sol invisibilis ou imago Dei. Em Paracelsus o lumen naturae vem principalmente do ‘astrum‘ ou ‘sydus‘, a ‘estrela’ no homem … De fato, o próprio homem é um ‘Astrum‘ não sozinho, mas para todo o sempre com todos os apóstolos e santos.

Liber AL revela claramente este “sol invisível desconhecido para muitos”, este sol invisibilis que é também a imago Dei que está no coração de todo homem e mulher. É todo homem e toda mulher que são “as luzes do mundo”. Jung também afirma quase a mesma doutrina do Liber AL dizendo que “o próprio homem é um ‘Astrum‘” e citando outro que essencialmente diz que o homem não está sozinho como uma estrela, mas “com todos os apóstolos e santos; todos e cada um são astrum … ”Nesse sentido, pode-se dizer que, simbolicamente, todas as estrelas estão unidas no céu noturno. Nuit proclama isso quando ela diz no Liber AL: Visto que eu sou o Espaço Infinito e as Infinitas Estrelas de lá, fazei isto vós também.

Nesta nota, voltamos a Jung, que escreve mais sobre os arquétipos da visão alquímica que corresponde à simbologia Thelêmica: “Parece-me significativo … que a visão alquímica característica de faíscas cintilando na escuridão da substância arcana deva, para Paracelso, mude para o espetáculo do “firmamento interior” e suas estrelas. Ele vê a sombria psique como um céu noturno estrelado, cujos planetas e constelações fixas representam os arquétipos em toda a sua luminosidade e numinosidade. A abóbada estrelada do céu é, na verdade, o livro aberto da projeção cósmica, no qual se refletem as mitologias, isto é, os arquétipos. Nessa visão, a astrologia e a alquimia, os dois funcionários clássicos da psicologia do inconsciente coletivo, dão as mãos ”.

Thelema postula que toda a existência manifestada que surge da interação de dois princípios cósmicos: o Continuum Espaço-Tempo infinitamente extenso e todo-penetrante; e o Princípio da Vida e Sabedoria, expresso individualmente e atômico. A interação destes Princípios dá origem ao Princípio da Consciência que governa a existência. No Livro da Lei, os Princípios divinos são personificados por uma trindade de antigas Divindades Egípcias: Nuit, a Deusa do Espaço Infinito; Hadit, a Serpente Alada da Luz; e Ra-Hoor-Khuit (Horus), o Solar, Senhor do Cosmos Cabeça de Falcão.

O sistema Thelêmico utiliza as divindades de várias culturas e religiões como personificações de forças divinas, arquetípicas e cósmicas específicas. Thelema sustenta que todas as diversas religiões da Humanidade estão fundamentadas em verdades universais; e o estudo da religião comparativa é uma disciplina importante para muitos Thelemitas.

HADIT:

Hadit se identifica como o ponto no centro do círculo, o eixo da roda, o cubo no círculo, “a chama que queima em cada coração do homem, e no centro de cada estrela”, e o interior do adorador. Hadit pode ser interpretado como o espírito interior do homem, o Espírito Santo, o esperma e o óvulo no qual o DNA do homem é levado, ao Elixir Vitae. Quando justaposto com Nuit no Livro da Lei Hadit representa cada ponto único de experiência. Estas experiências pontuais agregadas compreendem a soma de toda a experiência possível, Nuit.

Hadit, “o Grande Deus, o senhor do céu”, é representado na Estela da Revelação na forma do disco alado do Sol. Hórus de Behdet (também conhecido como o Behdeti). No entanto, enquanto os antigos egípcios tratavam o Sol e as outras estrelas como separadas, Thelema conecta o deus-sol Hadit com cada estrela individual. Além disso, o Livro da Lei diz: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”.

CHAOS:

O nome CHAOS é derivado de Liber CDXVIII, 14º, 4º, 3º e 2º Aethyrs, onde é identificado como um Nome de Chokhmah. CHAOS é o nome usado pelos Orfeus para denotar a substância primitiva, indiferenciada, da qual o Universo foi formado. Os alquimistas usaram a palavra “caos” para significar a “essência” ou “alma” de algo – sua parte “arejada” – é a partir desse uso da palavra “caos” que derivamos nossa palavra moderna “gás”. Refere-se ao Princípio Paterno Criativo, o Yod de Tetragrammaton, o Fogo de Heráclito e dos Oráculos Caldeus.

BAPHOMETH:

O complexo de símbolos do Leão / Serpente é muito antigo e ocorre em Mithraico, bem como na iconografia egípcia e gnóstica.

O Leão é o “Rei dos Animais”, devido à sua força, porte real, cor ensolarada e porque sua juba se assemelha à aurora do sol. A Serpente, talvez porque supostamente guardava a Árvore do Conhecimento, está associada à Sabedoria. Além disso, porque ela deixa cair a pele, e porque ela se move em um padrão ondulatório, a Serpente tem sido um símbolo de renovação e o ciclo de morte e renascimento. Algumas culturas notaram que, porque a serpente tem olhos sem pálpebras, é a única criatura que pode olhar diretamente para o Sol sem piscar.

O nome da letra hebraica Teth significa serpente e Teth é atribuído ao signo zodiacal de Leão, o leão. Teth corresponde ao Trunfo do Tarô chamado “Luxuria”, ou, no antigo sistema, “Força”. Esse Trunfo retrata a relação entre o CAOS e o BABALON.

Assim, o simbolismo da Serpente e do Leão pode ser tomado como se referindo à “luxúria” ou desejo que perpetuamente impulsiona a roda do nascimento, vida e morte. Esta doutrina é recapitulada na segunda invocação do sacerdote antes do Véu, que contém a seguinte citação do Livro da Lei: “Eu sou a vida e o doador da vida, e, portanto, é o conhecimento de mim o conhecimento da morte”.

Nossa tradição nos ensina que não há morte sem vida, e não há vida sem morte.

BAPHOMET é o nome do ídolo que os Cavaleiros Templários foram acusados de adorar. Baphomet foi interpretado de muitas maneiras diferentes por autoridades diferentes, aqui estão alguns exemplos:

-Von Hammer-Pürgstall: Gk. Baphe Metis = o Batismo da Sabedoria.

-Von Hammer-Pürgstall: Hb. Maphtah Bet Yahweh = A Chave para a Casa de Deus.

-Raspe: Gk. Baphe Metros ou Baphe Metios = o Baptismo ou Tintura de Sabedoria.

-CW King: Gk. Baphe Metros = o batismo da mãe, ou uma corrupção de “Behemoth”.

-Lévi: símbolo do Agente Universal, ou de Mercúrio, ou de Pan, ou de Enxofre, ou do Hylê Gnóstico ; também um notariqon reverso – TEM.OHPAB. = TEMpli Omnium Hominum Paces ABbas – “O Pai do Templo, a paz universal dos homens.”

-Mackey: um símbolo de mortalidade.

-Blavatsky: um símbolo de Azazel, o “Bode de Deus” ou “Força de Deus”, o antigo hebraico “cabra-bode”.

-Crowley: BAFOMIThR = Pai (de) Mithra; também 8 letras indicam mercúrio; também 729 = Kephas, pedra, o nome que Jesus deu a Pedro como o fundador da Igreja, a Pedra Cúbica que era o Cantinho do Templo; também o pentagrama invertido, o hermafrodita completamente crescido; também o ser original, Zeus Arrhenothelus ou Bacchus Diphues; também o andrógino, o hieróglifo da perfeição arcana; também o emblema de Pan Pangenetor como simbolizado por Atu XV, o “Diabo” Trunfo do Tarô.

RA HOOR KHUIT:

Ra-Hoor-Khuit também chamado Hoor-Par-Kraat, é o Harpócrates grego, isto é, a criança Horus, coroada e conquistadora.

A relação entre Nuit, o todo existente, e da existência e Hadit, o infinitamente pequeno centro, o núcleo da estrela, a kundalini eleva o homem a Ra-Hoor-Khuit, às vezes chamado simplesmente de Horus, que não é nada além da Verdadeira Vontade, a conclusão da Magnum Opus.

Para entender o terceiro capítulo do Livro da Lei é necessário entender Ra-Hoor-Khuit na sua dimensão adequada, por um lado, falamos de Hórus, o deus do sol vitorioso, e do outro lado (mas complementares) que se referem a Faraó Deus-homem que conquista o universo.

Discurso / divulgação de Ra-Hoor-Khuit é pronunciado, não por Osíris, o deus miserável de sinonímia entre humilhação e glória, mas o próprio sol, sua prosa é agressiva, há uma violência latente quase que em todas as passagens, são as palavras de um general para seus soldados.

Sua guerra é contra o mundo, contra o próprio Universo, porém se refere ao “microcosmo” no sentido renascentista, ao Universo interno ou à Natureza Oculta, isto é, de maneira vulgar, à subjetividade. É neste sentido que o centro de Ra-Hoor-Khuit do universo proclama, como o alcance verdadeiro será que o sujeito se torna o centro de seu universo subjetivo, seu microcosmo, e pode realmente reinar, em vez de ser levada pela maré dos caprichos inconsequentes.

Ra-Hoor-Khuit é o conquistador, faraó coroado que lutou e conquistou todos os seus inimigos, que está sentado no trono e contempla seus cosmos, mas também é uma criança, e enquanto isso pode parecer contraditório inicialmente (para o pensamento de conquista e de guerra que geralmente nascem a imagem de um adulto), mas tem a sua razão de ser e adequadamente reflete a natureza da verdadeira vontade e, por extensão, o Aeon de Hórus, cujo princípio orientador é, precisamente, o princípio da criança.

Had! A Manifestação de Nuit!

Nuit é a representação do espaço cósmico, a Deusa Estrelada que tudo contém. Está ilustrada na Estela da Revelação, em seu topo, como uma mulher curvada sobre o símbolo de Hadit, o Globo Alado. Ela fala através de Aiwass para o Profeta no Primeiro Capítulo de Liber Al vel Legis onde são apontados vislumbres sobre sua natureza. Ainda que ela seja o espaço exterior macrocósmico onde tudo é possível de se manifestar, onde cada estrela mantém sua existência e se desenvolve, ela também está, em um sentido microcósmico, em todo ser, na medida em que somos cada um de nós, um universo:

Eu estou sobre vós e em vós. Meu êxtase está no vosso. Minha alegria é ver vossa alegria. | Liber AL vel Legis, Cap I:13.

No Tarot de Thoth a Deusa é representada pelo Atu XVII, A Estrela, onde na iconografia renovada da carta Ela é entendida como “as possibilidades inesgotáveis da existência” (Crowley, O Livro de Thoth; pag. 114). A alegoria das taças representadas nesta carta, e também presentes na iconografia clássica do Tarot de Marselha, estão de acordo com parte do hieróglifo que forma seu nome, cujo desenho é um pote com água –  – que representa o útero. O símbolo também se associa a Aquário, denotando uma das características do Aeon de Hórus, assim como este signo está associado ao Atu XVII.

No primeiro capítulo de Liber AL, a Deusa proclama a Lei de Thelema, cuja principal atividade do buscador é conhecer e reconhecer a natureza de sua Verdadeira Vontade (Θελημα), cujo produto é o Amor, sendo este condicionado e regido sempre pela Vontade firmando, portanto, a máxima Thelêmica: “Faze o que tu queres será o todo da Lei / Amor é a lei, amor sob vontade”. Compreender Nuit é dedicar-se ao estudo detalhado do Capítulo I de Liber AL vel Legis.

De maneira mais “objetiva”, Nuit é o Nada Absoluto, a Deusa Primordial, desprovida de individualidade, sendo que a individualidade (diferente daquela baseada na compreensão e razão humanas) é expressa em seu complemento Hadit. Como Nada Absoluto, Nuit pode ser entendida tanto como os Véus da Existência acima de Kether na Árvore da Vida Qabalística, quanto também representada pela terceira Sephirah Binah: a “manifestação de Nuit em um plano inferior” (Crowley, O Livro de Thoth, pag. 115). Nuit, portanto, abrange o simbolismo do Grande Mar: assim como ela é o mar cósmico além e acima de nossas cabeças e além e profundamente estendido em nosso interior.

Visto que Nuit é de fato Contínua, Nenhuma e Duas[1], sua natureza maior é o Amor: e a existência e manifestação da vida se dão pelo ato de amor, resultando em divisão 0=2, assim como o retorno à fonte da existência se processa pela união 2=0, uma das bases metafísicas da Magia Sexual. E por Amor, em Thelema, estamos longe de reconhecê-lo como um sentimento romantizado ou carregado de conceitos morais da sociedade ocidental contemporânea herdeira de inúmeros enganos: este Amor é àquele espiritual, transcendente e imanente, distante dos mecanismos da razão e do ego, onde o desejo se faz um falso rei. Poderíamos intuir que a natureza do Amor de Nuit é o desejo elevado e vontade da existência e sua manifestação onde Ela se regozija ao ver e sentir a alegria dos mundos e dos seres; ou o sentido esotérico dado pelos iniciados ao conceito Ágape. Outra característica sobre este amor está em Liber AL que corresponde ao trabalho da Kundalini e logo, o trabalho com os Chakras, onde a serpente é sua representação[2]. Em seus comentários sobre o Livro da Lei, Cap. I:57 a natureza do amor é explicitada, assim como sua fórmula de trabalho:

O método da Magick neste trabalho – e em todos – é: “amor sob vontade”. A palavra amor (Ágape em grego) tem o valor de 93, como o de θέλημα, vontade. Isto implica que o amor e a vontade são, na verdade, uma e a mesma coisa, duas fases de um tema. O amor é assim mostrado como o meio pelo qual a vontade pode ser trazida ao sucesso. (Crowley, O Comentário de Djeridensis).

Amor sob vontade – nenhum amor pagão casual; nem amor sob medo, como os cristãos fazem. Mas o amor dirigido magicamente e usado como uma fórmula espiritual. | Esse amor, então, deveria ser o amor da serpente, o despertar da Kundalini. (Crowley, O Comentário Antigo).

Nuit também se apresenta e ainda indica um dos métodos pelos quais o buscador poderá iniciar alguma compreensão sobre sua natureza, relacionada ao Nada Absoluto:

Agora, portanto, eu sou conhecida de vós pelo meu nome Nuit e dele por um nome secreto que eu hei de lhe dar quando por fim ele me conhecer. Visto que eu sou o Espaço Infinito e as Infinitas Estrelas de lá, fazei isto vós também. Nada prendais! Que no meio de vós não exista diferença feita entre uma coisa qualquer & qualquer outra coisa; pois disso vem a dor. | Liber AL vel Legis, Cap. I:22

Sendo Nuit o nome pelo qual os homens podem conhecer nesta era a forma primordial da existência, contínua e eterna, intui-se que em outras eras esse mesmo princípio obteve outros nomes, sendo estes acordados para a fórmula mágica das eras passadas. A Mãe Primordial que assume nomes específicos para cada estágio da evolução. Crowley em seus comentários do Livro da Lei, em específico para a passagem acima citada, revela ainda mais a natureza de Nuit, intangível pela razão:

Realidade e ilusão: o Nenhum, o Um, o Muitos e o Todo, identificados através dela. Nuit é o espaço além da ideia de limite ou medida; Ela também é Todos os Pontos de Vista, não menos que Todas as Vistas vistas a partir dela. (Crowley, O Comentário de Djeridensis).

Nuit é tudo o que existe e a condição dessa existência. (Crowley, O Novo Comentário).

Por fim vale reforçar que o Capítulo I de Liber AL vel Legis, é a promulgação da Lei de Thelema, contém a natureza da Deusa e as fórmulas pelas quais seus mistérios devem ser estudados e experimentados, abrindo novas percepções inclusive para o entendimento da Qabalah. Todos os atos da vida são atos sagrados, e todos devem ser direcionados em um ato de Magick à Deusa, como pode ser apreciado nos versículos finais.

A Mim! A Mim!

***

Este é o segredo do Santo Graal, este é o cálice sagrado de Nossa Senhora a Mulher Escarlate, Babalon, a Mãe das Abominações, a noiva de Chaos, que cavalga sobre nosso Senhor a Besta. | Tu verterás o teu sangue que é tua vida dentro do cálice dourado de sua fornicação.| Tu mesclarás a tua vida com a vida universal. Tu não reterás uma só gota .| Liber Cheth vel Vallum Abiegni

Babalon: BABAL: Portal + ON (Sol) = Porta do Sol. O Santo Graal, A Yoni, O Princípio Feminino do Universo. A representação mais direta é o Cálice, que contém a substância da compreensão do Magista. Na representação do Atu XI, Volúpia, do Tarot de Thoth, Babalon ergue a Taça, símbolo de Iluminação. Babalon está associada diretamente e objetivamente, na Árvore da Vida, à terceira Sehpirah Binah, cujas definições abrangem as ideias de Útero, Mãe Suprema, Grande Mar e Compreensão. Como Útero, é onde as ideias encontram uma forma ideal final. Sendo, portanto diretamente relacionada a esta esfera e A Yoni, Babalon é o Portal para a Cidade das Pirâmides, o lugar onde o Adepto que realizou a Grande Obra de Consecução e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, dele se desapossa e adentra livre, para empreender o estado de ciência sobre a realidade da existência. Onde os véus de Maya se dissolvem. Para os Gnósticos, esta Cidade possui caráter Feminino e representa o pensamento divino em manifestação. Em outro nível, acessar Babalon enquanto arquétipo, Rainha da Cidade das Pirâmides que existe além do Abismo, ou seja, Binah, significa também um profundo mergulho no inconsciente.

Sua qualidade de Mãe Suprema a aproxima da matéria, palavra derivada, no latin, da palavra Mãe. Ainda que Nuit enquanto Nada Absoluto também assuma a qualidade de Mãe Suprema associada à Binah, Nuit é uma concepção imagética muito mais sutil que Babalon. Em verdade, Bablon e Nuit são a mesma. Porém Babalon corresponde a um estado “abaixo” de Nuit, sendo uma face da mesma. Em Liber XV (A Missa Gnóstica) Babalon é a Terra, o “ventre no qual todos os homens são criados e onde eles deverão descansar”. Em um nível sociológico, Babalon pode ser entendida como a liberdade e atuação ativa da Mulher, seja ela sexual, política ou econômica.

Babalon pode ser equiparada à Shakti, que significa Poder. Ela concede poder para que a ação seja possível, ela movimenta e desenvolve a realidade existente. Ela cria e dá forma, assim como somos gerados no útero. Segundo a mitologia indiana, Shakti concede parte de seu poder para que os Devas (Shiva, Brahma e Vishnu) possam atuar no universo. Nesse sentido, quando nos deparamos em Liber AL vel Legis, Cap. I:15 com a afirmação “e em sua mulher chamada a Mulher Escarlate está todo o poder concedido” trata-se de uma das naturezas da atuação da Mulher ao trabalhar com o princípio de Babalon, aludindo claramente às práticas de Magia Sexual, como o Tantra da Mão Esquerda. Babalon, portanto é também a energia sexual sublimada, desprovida dos recalques, dos fetiches e ilusões pornográficas. Na Magia Sexual, esta é a Fórmula da Mulher Escarlate e da Besta, cujo Profeta e Sua Noiva atuaram para a abertura do Aeon de Hórus e onde Magistas devidamente treinados podem também obrar, seja para o desenvolvimento espiritual particular ou ainda para alimentar as forças do Aeon de Hórus.

Babalon e Mulher Escarlate também são a mesma, assim como Nuit e Babalon são uma. Todas as três existindo e atuando em seus respectivos planos de existência como é expresso pelo axioma hermético: “O que está em cima é como o que está abaixo”. A Mulher-Sacerdotisa é, portanto uma imagem de Babalon. Babalon enquanto arquétipo thelêmico, representa também nossa capacidade de doação e despojamento total de nossas máscaras e ego. O Magista thelêmico atua na execução de sua Verdadeira Vontade, lapidando seu ser, compreendendo-se profundamente e crescendo em poder e sabedoria para sacrificar todo seu trabalho à Babalon: seu sangue, trabalhado até a perfeição, é vertido na Taça Sagrada, em dádiva suprema para existir enquanto Santo. O ego sacrificado à Babalon é aquele bem compreendido e lapidado.

Este Caminho está além da Vida e da Morte; ele também está além do Amor; porém aquilo tu não sabes, pois tu não conheces o Amor. | Liber Cheth vel Vallum Abiegni

 

Amor é a lei, amor sob vontade.

 

Frater Tahuti e Soror A. 6&50.

 

 

[1] 27. Então o sacerdote respondeu & disse para a Rainha do Espaço, beijando suas adoráveis sobrancelhas, e o orvalho de sua luz banhando seu corpo inteiro em um perfume adocicado de suor: Ó Nuit, única e contínua do Céu, que seja sempre assim; que os homens não falem de Ti como Uma mas como Nenhuma; e que não falem de Ti de modo algum visto que Tu és contínua! 28. Nenhuma, sussurrou a luz, lânguida & encantada, das estrelas, e duas. 29. Pois eu estou dividida por causa do amor, pela chance de união. 30. Esta é a criação do mundo, que a dor da divisão é como nada, e a alegria da dissolução é tudo.

[2] Invocai-me sob minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob vontade. Nem permita que os tolos confundam o amor; pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolhei bem! Ele, meu profeta, escolheu, conhecendo a lei da fortaleza, e o grande Mistério da Casa de Deus. Liber AL vel Legis, Cap. I:57.