Oásis Opus Solis

NOVO AEON E O.T.O

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

Este texto é fruto da palestra aberta realizada em maio de 2018 era vulgar e intenta apresentar algumas ideias para a compreensão do Aeon de Hórus e o surgimento da O.T.O. na modernidade. Não se pretende findar o assunto, ou ainda apresentar todos os pontos possíveis de discussão, mas sim, informar o buscador sobre aspectos que podem ser indicativos para o início do mergulho no grande mar da filosofia Thelêmica. Sucesso a todos!

Amor é a lei, amor sob vontade.

Soror A. 6&50.

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A palavra Aeon, Éon, ou Eão, do grego αιών, é um termo utilizado para designar um período longo de tempo. Seu significado na língua grega abrange as noções de “tempo de vida”, “força vital”, “geração” ou “eterno”. Em astronomia, relaciona-se ao evento denominado Precessão dos Equinócios, onde aproximadamente a cada 2.150 anos, o Sol nasce no dia do equinócio alinhado a uma constelação específica, do ponto de vista de observação da Terra. Em termos ocultistas, assim como sofremos influências diretas em nossa psique do Sol e da Lua e ainda das estrelas a partir das cartas natais e outros eventos astrológicos, as influências das constelações envolvidas durante um Aeon ocasionam para a mentalidade humana novas concepções morais, éticas e novas fórmulas mágickas, ou seja, meios pelos quais a humanidade pode acessar e compreender o mistério da existência. Por esta perspectiva, os gnósticos entendem um Aeon enquanto o espírito emanado da existência eterna; os atributos personificados do poder divino que se manifestam e emanam periodicamente, como intermediários entre o espiritual e o mundo material.

A organização dos signos zodiacais no mapa circular da abóbada celeste apresenta sempre uma relação de oposição de um signo para o outro. Quando o Sol, durante a Precessão dos Equinócios nasce alinhado a uma constelação específica, em oposição há outra; por isso a nomenclatura que envolve dois signos zodiacais para cada Aeon: Áries-Libra, Virgo-Pisces e Aquário-Leo[1], sendo esta última àquela em que vivemos atualmente. No entanto, o início e o fim de um Aeon particular, não envolve de forma rígida uma sincronia astronômica / astrológica. Se considerarmos estas duas ciências, ainda estamos na Era de Virgo-Pisces, principalmente para vertentes da astrologia tradicional. Em Thelema considera-se que o Aeon de Hórus iniciou seu percurso em 1904 era vulgari, com o chamado Equinócio dos Deuses e envolve a escritura do Livro da Lei como será apresentado adiante.

Entender a história e mentalidade da humanidade em relação aos eventos astrológicos e astronômicos condensados sob a luz do conceito de Aeon é um trabalho de pesquisa e correlações extensas. Aleister Crowley tornou a compreensão mais objetiva e delimitou a história da humanidade em três Aeons: Isis, Osíris e Hórus. O Aeon de Isis se relaciona à mentalidade direcionada à compreensão da geração da Vida e da Natureza em seu aspecto doador de toda a subsistência, sendo marcado historicamente pelo período pré-histórico (caçadores-coletores) até o início das civilizações. Desta forma, observamos os primeiros calendários baseados na ciclicidade da Lua e as práticas de culto que envolviam o mistério da vida relacionados principalmente aos partos e a geração da vida humana, sendo a partenogênese uma realidade. Entende-se também como um período politeísta: a expressão da Natureza, por ser múltipla, exigia um panteão divino também diversificado ainda que a figura da Grande Deusa seja preponderante.

O Aeon de Osíris, com o desenvolvimento já avançado de grandes civilizações como a Egípcia e a Romana, representou a relação da humanidade com a Morte e a Ressurreição. Se no Aeon de Isis a vida era um mistério a ser observado e cultuado (a natureza doadora), no Aeon de Osíris, com o domínio principalmente da agricultura (a natureza “controlada”) a vida, a morte e principalmente a vida pós-morte eram aspectos de extrema importância. O mito da partogêneses é superado dando lugar ao entendimento do papel do sexo. Os ciclos solares diários e sazonais e sua influência direta nas plantações cria uma gama de deuses dos grãos e do plantio, como Lugh e Dionísio, que também representam esse mistério: ainda que a vida seja inevitavelmente seguida pela morte, o sacrifico acionado pelo movimento rápido da foice, produz a colheita mantenedora da vida; no entanto, o grão resultado do sacrifico, trás em si o mistério da vida posterior, a próxima plantação e colheita. Esta explicação simplificada se relaciona aos cultos pagãos da Europa e era uma das bases dos mistérios heleusinos. Ainda que neste período seja possível encontrar uma mentalidade politeísta, gradativamente o monoteísmo se torna recorrente, gerando grandes religiões de massa como o cristianismo e islamismo.

O período Osiriano está mais próximo historicamente da mentalidade atual do que o Aeon de Isis. Ainda assim, em termos sociológicos, podemos observar na contemporaneidade a coexistência dos três Aeons (Isis, Osíris e Hórus): o ressurgimento do paganismo e o culto à Grande Deusa no boom de círculos de mulheres e reaceitação da menstruação enquanto natural e sagrada; o fundamentalismo religioso pautado no deus único; e no caso do Aeon de Hórus a importância dada à expressão individual. No Aeon de Hórus entende-se a consciência solar enquanto contínua, e não mais como um ciclo de vida-morte-ressurreição. Portanto, é no Aeon de Hórus que o entendimento da eternidade e continuidade da vida, independente da realidade concentrada apenas na vivência na matéria, inicia sua experimentação de forma objetiva.

Em Liber XV (Missa Gnóstica), é possível perceber claramente a presença dos três Aeons e convido o leitor a fazer um estudo do rito. Chamo a atenção para o Credo, onde os participantes em coro afirmam suas certezas e declamam: “E eu confesso minha vida Una, Individual e Eterna, que foi, é e será”. Essa passagem (também) afirma a natureza do Aeon de Hórus apontada acima: a natureza individual, contudo eterna, assim como o sol é contínuo, estando à meia noite vivo em brilho e esplendor. Qualquer um mais atento, ou preso aos mecanismos da razão (como se esta amiga fosse o único meio para a compreensão), poderia questionar afirmando a finitude da vida, visto que o sol tem sua morte marcada para daqui há alguns bilhões de anos. Ora, na medida em que somos existência eterna, indo e vindo como Aeons e os sois, entendemos nossa estrela como uma metáfora: um ponto concentrado de força e luz, manifestação da existência duradoura, que se recria em uma dança eterna. Que cada um de nós tenhamos abertura e imaginação suficientes para trazer à interioridade pessoal esse assunto um tanto metafórico e metafísico. Na medida em que morte e ressurreição são substituídas pela consciência da existência contínua, a morte é também entendida, portanto, enquanto constante: “Mas agora no Aeon de Hórus nos sabemos que todo evento é uma morte, sujeito e objeto matam um ao outro em ‘amor sob vontade’; cada uma de tais mortes é em si vida, o meio pelo qual nós realizamos a nós mesmos através de uma série de episódios” (Aleister Crowley. Liber ABA – A Fórmula do I.A.O). Nesse sentido, a atuação da Verdadeira Vontade, sempre “sacrifica” algo, assim como diariamente nossas células morrem para nossa continuidade.

Outro aspecto importante diz respeito ao ser humano divinizado. Nós somos Deus(es). O politeísmo e o monoteísmo se encerram com esta perspectiva elevando a consciência humana ao entendimento de que somos Deus e, portanto responsáveis por nossos atos de criação e destruição. Essa divindade pessoal se dá no exercício da Verdadeira Vontade, cuja fórmula é expressa em “Faze o que tu queres será o todo da Lei / Amor é a lei, amor sob vontade”, onde a individualidade, a independência e o autogoverno são premissas de atuação no mundo. Os Aeons de Isis e Osíris tem forte apelo coletivisador, o primeiro relacionado à subsistência e o segundo na massificação através das religiões onde a capacidade crítica individual é anulada. Nesse caso, no Aeon de Hórus não são excluídas as relações grupais e coletivas, a questão é que a individualidade é valorizada, não em um sentindo individualista e egoísta, mas sim de percepção de nossa existência enquanto principal e primordial capaz de gerar mudanças e de atuar por si só. Não há mais sacerdotes ou gurus intermediários para realizar a conexão com a fonte eterna da existência, da qual somos frutos pensantes e não criações opacas e obedientes. A coletividade se dá enquanto um conjunto de indivíduos partícipes.

A junção dos opostos é mais um tema para reflexão no presente Aeon:

Nós não vemos nenhuma inimizade entre direita e esquerda, acima e abaixo, e similar pares de opostos. Estas antíteses são verdadeiras apenas como termos de relação; elas são convenções arbitrárias pelas quais nós representamos nossas ideias em um sistema pluralístico baseado em dualidade. ‘Bom’ tem que ser definido em termos das ideias e instintos humanos. ‘Este’ não tem significado a não ser como referências dos assuntos internos de nosso planeta; como direção absoluta no espaço, muda um Grau a cada quatro minutos. ‘Acima’ não tem o mesmo significado para dois homens, a não ser que um esteja de pé sobre a cabeça do outro, e ambos em linha reta com o centro da Terra. ‘Duro’ é a opinião privada de nossos músculos. ‘Verdadeiro’ é um epíteto totalmente inelegível que se tem provado refratário à análise das nossas mais hábeis filosofias. (Aleister Crowley. Liber ABA – A Fórmula do I.A.O.).

Portanto, uma das finalidades do trabalho em Magick no contexto do Novo Aeon é o despertar da consciência para a completude, a continuidade e o fim dos paradoxos, na medida em que os pontos de vista e perspectiva são muitos e que devemos experimentá-los e uni-los em nossa consciência particular. O Aeon de Hórus não solicita a ortodoxia religiosa. O Aeon de Hórus é o ser e estar no mundo através do exercício da experimentação, orientada pela Verdadeira Vontade. Ainda que existam práticas ritualísticas a serem exercidas pelos magistas, estas se relacionam, nos graus iniciais, a uma série de treinos e rituais desenvolvidos e reescritos para que a natureza dessa Vontade seja aflorada e exteriorizada, levando o magista à sua compreensão. Para o esforço da Disciplina a resultante é a Verdadeira Vontade coroada pela Liberdade. Como crianças e cientistas, experimentação com fins de descoberta objetiva e útil: tanto sobre os mundos e realidades possíveis quanto sobre a natureza interior reflexo da divindade particular que somos.

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A entrada do Aeon de Horus no ano de 1904 era vulgari é um conjunto de eventos que podem ser considerados por aqueles mais céticos como mito ou alucinação. Mas os poucos que experimentam a Certeza, e não a fé, como dito em Liber AL vel Legis, concedem credibilidade ao Equinócio dos Deuses. Pode ser que daqui a alguns anos esta história se torne realmente um mito. Mas quais mitos estão deslocados da realidade objetiva e histórica? Não pretendo reescrever a ocorrência dos fatos, então tomo a liberdade de realizar longa citação do texto O Advento do Æon de Hórus, um excerto do 49º capítulo do livro The Confessions of Aleister Crowley – An Autohagiography, onde Aleister Crowley relata os eventos que trouxeram à luz o Novo Aeon:

Este capítulo é o clímax deste livro [The Confessions, Aleister Crowley]. Seu conteúdo é tão extraordinário, ele exige uma explicação preliminar ampla e profunda, a tal ponto que fico em desespero. Isto é tão sério para mim que a minha responsabilidade me esmaga. Toda a minha vida anterior não foi nada mais do que uma preparação para este evento, e toda a minha vida subsequente não foi meramente determinada por ele, mas comprometida com ele.

Eu fiz várias tentativas para escrever a história destas poucas semanas, em particular aquela seção de O Templo do Rei Salomão que apareceu em O Equinócio, vol. I, nº. VII. Eu não posso incorporar esses documentos no corpo deste livro com exatidão literária, porém eles são apresentados num apêndice, juntamente com o texto d’O Livro da Lei.

Durante a maior parte dos nove anos passados da minha vida eu estive preocupado, a cada ano mais plenamente do que no anterior, com o problema de provar para a humanidade em geral as questões envolvidas. A fim de tornar os elementos de minha tese tão claros e distintos quanto possível, eu tentarei separá-los em seções.

Ouarda [esposa de Crowley, Rose] e eu partimos de Helwan para o Cairo (Data indeterminada, provavelmente em 11 ou 13 de Março [1904]). Nós alugamos um apartamento (endereço indeterminado) na Quarta feira, 16 de Março. Um dia, não tendo nada em especial para fazer, eu realizei a ‘Invocação Preliminar’ acima referida. Eu não tinha alguma intenção mais séria além de mostrar a ela os silfos, assim como eu poderia tê-la levado ao teatro. Ela não pôde (ou se recusou a) vê-los, mas ao invés disso entrou em um estado mental estranho. Eu jamais a tinha visto antes numa situação como aquela. Ela prosseguia repetindo como num sonho, porém intensamente, ‘Eles estão esperando por você’. Eu fiquei aborrecido com o seu comportamento.

17 de Março. Eu não me recordo se repeti minha tentativa de mostrar os silfos a ela, mas provavelmente o fiz. É do meu temperamento persistir. Ela entrou novamente no mesmo estado e repetiu as suas observações, acrescentando, ‘É tudo sobre a criança’. E ‘Tudo Osíris’. Eu acho que devo ter me aborrecido com a sua teimosia. Talvez por este motivo eu invoquei Thoth, o deus da sabedoria, provavelmente através da invocação impressa no Liber Israfel (O Equinócio, Vol. I, nº. VII), que eu sabia de cor. Eu também posso ter estado a me perguntar subconscientemente se não haveria algo nas suas observações, e queria ser esclarecido. O registro diz, ‘Thoth, invocado com grande sucesso, habita em nós’. Porém este ‘esboço’ me chocou até certo ponto num espírito de complacência, se não de arrogância. Eu não me lembro de nada sobre qualquer resultado.

18 de Março. Possivelmente eu repeti a invocação. O registro diz, ‘Revelado que aquele que espera era Hórus, a quem eu havia ofendido e a quem deveria invocar’.

‘O que espera’ soa como um sarcasmo. Eu achei que fosse pura insolência de Ouarda oferecer observações independentes. Eu quero que ela veja os silfos.

Eu devo ter me impressionado em um ponto. Como Ouarda sabia que eu havia ofendido Hórus? Os problemas de Mathers eram devidos à sua excessiva devoção a Marte, que representa um lado da personalidade de Hórus, e sem dúvida eu estava predisposto a errar na direção oposta, a negligenciar e antipatizar com Marte como sendo a personificação da violência ignorante.

Mas o seu acerto preciso seria uma casualidade? Sua menção de Hórus me deu uma chance de interrogá-la. ‘Como você sabe que é Hórus quem está dizendo tudo isso a você? Prove a identidade dele’ (Ouarda conhecia Egiptologia menos do que noventa e nove turistas cairotas dentre cem). As suas respostas eram assombrosas. As probabilidades das suas respostas estarem certas eram de uma em muitos milhões.

Eu deixei que ela fosse em frente. Ela me instruiu sobre como invocar Hórus. As instruções, do meu ponto de vista, eram pura bagatela. Eu sugeri que fossem melhoradas. Ela se recusou enfaticamente a permitir que um único detalhe fosse alterado. Ela prometeu sucesso (qualquer coisa que pudesse significar) no Sábado ou no Domingo. Se me tivesse restado alguma aspiração, esta seria a de alcançar o Samadhi (o que até agora eu ainda não havia conseguido). Ela prometeu que eu conseguiria. Eu concordei em colocar em prática as suas instruções, de modo a mostrar abertamente para ela que nada poderia acontecer se você quebrasse todas as regras.

Em algum dia antes de 23 de Março, Ouarda identificou o deus em particular com o qual ela estava em comunicação em uma estela no Museu Boulak, que nós nunca havíamos visitado. Esta não é a forma comum de Hórus, mas a de Ra-Hoor-Khuit. Sem dúvida eu estava muito impressionado pela coincidência de que a peça exibida, uma estela muito obscura e comum, trazia o número de catálogo 666. Mas eu repudiei a isso como sendo uma óbvia coincidência.

19 de Março. Eu fiz um esboço do ritual e realizei a invocação com pouco sucesso. Eu fiquei desconcertado, não apenas pelo meu ceticismo e pelo absurdo do ritual, mas por eu ter de realizá-lo usando túnica junto a uma janela aberta em uma rua ao meio dia. Ela me permitiu fazer a segunda tentativa à meia noite.

20 de Março. A invocação foi um sucesso surpreendente. Me foi dito que ‘O Equinócio dos Deuses tinha chegado’; ou seja, que uma nova época tinha começado. Eu deveria formular uma conexão entre a força solar-espiritual e a humanidade.

Várias considerações me mostraram que os Chefes Secretos da Terceira Ordem (ou seja, da A A cujas Primeira e Segunda Ordens eram conhecidas como G D e R.R. et A.C. respectivamente) enviaram um mensageiro para conferir-me a posição que Mathers tinha perdido. Eu coloquei uma condição de que eu deveria alcançar o Samadhi; ou seja, que eu deveria receber um grau de iluminação, sendo que no caso de não cumprimento disso, seria presumível que eu fosse indicado.

21, 22 e 23 de Março. Parece ter havido uma reação após o sucesso do vigésimo dia. Os fenômenos desapareceram pouco a pouco. Eu tentei elucidar a minha posição através dos métodos antigos e realizei uma longa divinação pelo Tarô que provou ser perfeitamente fútil.

23 de Março a 07 de Abril. Eu fiz averiguações sobre a estela e fiz com que as inscrições fossem traduzidas em francês pelo curador assistente em Boulak. Eu fiz paráfrases poéticas com elas. Ouarda me disse agora para entrar no quarto, onde todo este trabalho havia sito feito, exatamente ao meio dia nos dias 8, 9 e 10 de Abril, e para anotar o que eu ouvi, encerrando exatamente à uma hora. Isso está feito. Nestas três horas foram escritos os três capítulos d’O Livro da Lei.

A declaração acima é tão sucinta quanto eu pude fazê-la. Lá pelo dia 8 de Abril, eu tinha sido convencido da realidade da comunicação e obedeci às instruções arbitrárias da minha esposa com certa confiança. Não obstante eu mantive a minha atitude cética.

Sugiro que o leitor faça suas pesquisas e consultas sobre estes eventos e sobre a vida de Aleister Crowley e, no que concerne às críticas mais velhas e batidas como “o pior homem do mundo”, “satanista” (seja lá o que isso significa) e “machista” em nada nos interessa e sim, o que importa, é o extenso trabalho realizado para o desenvolvimento do sistema Thelêmico e de Magick.

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A fundação da Ordo Templi Orientis ocorre, curiosamente, em paralelo aos eventos que envolveram a escritura do Livro da Lei e o consequente início do Aeon de Hórus. De fato, a Ordo Templi Orientis é estabelecida oficialmente no ano de 1904 quando um dos idealizados da Ordem, Theodor Reuss, recebe patentes para operar diversos ritos maçônicos. Considero de bom senso que o leitor faça um estudo da História da O.T.O através do texto elaborado por Frater Sabazius Xº, onde os eventos são narrados e detalhados cronologicamente. Aqui apresento um recorte pessoal deste estudo contendo alguns tópicos principais e todas as citações sem referências são trechos retirados deste texto.

Dentre os intentos dos idealizadores da Ordem, Carl Kellner e Theodor Reuss, destaco dois fundamentais: a reunificação das tradições ocultas do ocidente e do oriente e a participação das mulheres. O primeiro está fortemente relacionado à experiência mística de Kellner, quando em viagens pela América, Europa e Ásia Menor. Ele afirmou ter entrado em contato com três adeptos (um Sufi e dois Tantristas Hindus) e uma organização chamada A Irmandade Hermética da Luz. Kellner acreditava ter descoberto a “Chave” que oferecia uma aplicação e explicação claras do simbolismo maçônico. A O.T.O, então inicialmente, se apresenta enquanto uma Academia Maçônica onde esta “Chave” seria apresentada para aqueles detentores dos altos graus maçônicos. O segundo ponto é divisor de águas: na medida em que a O.T.O. tratava-se em sua fundação de uma Academia Maçônica, a participação das mulheres seria um ponto a ser resolvido, visto que, como sabemos, mulheres não se iniciavam na maçonaria. Para tal, Keller, Theodor e Leopold Engel buscam obter o controle de muito dos ritos ou sistemas maçônicos com o objetivo de reformá-los para a admissão de mulheres. Acredito que este é um tópico significativo em termos do Aeon de Hórus na medida em que “Todo homem e toda mulher é uma estrela”.

As mulheres estiveram à margem dos mistérios ocultos durante grande parte do período Osiriano, sendo excluídas da prática da magia cerimonial e outros ramos, ficando a cargo delas as impressões da intuição, da adivinhação, etc.. Em contrapartida a esta falácia, trabalhos como o de Blavastky, aponta para o fato de que as mulheres são, de fato, detentoras de grande capacidade intelectual e espiritual não havendo mais razões para que as mulheres estivesses à parte dos mistérios “sofisticados”guardados por muitas sociedades ocultistas. Afinal, o tantra da mão esquerda depende também da relação entre homem e mulher e esta mulher tantrista não corresponde à passividade. Lembremos que Babalon é aquela que monta, rege e controla o curso da força solar da Besta.

Em 1912, é publicado o primeiro Manifesto da O.T.O. O excerto que segue, demonstra a natureza da Ordem:

Nossa Ordem possui a CHAVE que abre todos os segredos maçônicos e herméticos, a saber, a instrução de magia sexual, e essa instrução explica, sem exceção, todos os segredos da natureza, todo simbolismo da Franco-Maçonaria e todos os sistemas de Religião.

Por este aspecto, o sistema da O.T.O pode até dar a entender certa pretensão de grandeza, mas em “realidade”, todos os mistérios estão conectados e interligados, todos os sistemas de religião são um e o sexo é a base da criação e move energias que vulgarizamos para nossa satisfação e desejos pessoais em desperdício.

A chegada de Aleister Crowley se dá também em 1912 que, através de Reuss, recebe patentes e é indicado como Grande Mestre Nacional Geral Xº da O.T.O. para a Grã Bretanha e Irlanda. Dentre os ritos adotados como elementos integrais do sistema geral da O.T.O estavam o Rito de Swedenborg, O Antigo e Primitivo Rito de Memphis, Antigo Rito Oriental de Misraim e o Antigo e Aceito Rito Escocês. A autoridade de Crowley se resumia à época aos ritos de língua inglesa nos graus inferiores, aos quais foram dado o nome de Mysteria Mystica Máxima, ou M.·.M.·.M.·..

Ainda em 1912, Crowley e Reuss já haviam “condensado o sistema da Arte e dos Altos Graus em um sistema viável de dez graus numerados que incorporavam os ensinamentos e simbolismos de um certo número de sociedades ocultistas e místicas”. Entre estas sociedades podemos citar a Igreja Gnóstica Católica, A Igreja Oculta do Santo Graal, A Ordem Rosacruz, A Fraternidade Hermética da Luz, A Hermética Ordem da Golden Down, O Antigo e Primitivo Rito da Maçonaria, A Ordem Martinista, etc. e como referido n’O Manifesto da M.·.M.·.M.·. redigido por Crowley em 1913, “E muitas outras ordens de mérito igual, se de menos fama”. Este Manifesto identifica a M.·.M.·.M.·. como “um corpo de iniciados” e uma seção britânica da O.T.O. Já o sistema de dez graus fazem referência as Sephiroth da Árvore da Vida Cabalística, estando os mistérios de cada grau também associados à experimentação e compreensão destas esferas.

Em 1913 Crowley redige também o rito da Missa Gnóstica (Liber XV), onde ele “(…) preparou para uso da O.T.O.” enquanto “cerimônia central de sua celebração pública e particular, correspondendo à Missa da Igreja Cathólica Romana”. É notável que o rito da Igreja Católica Romana tenha em distância imensa de grau, diferenças em relação ao rito elaborado por Crowley. Primeiro a presença da Sacerdotisa é evidente e de outros oficiais, a clara referência à Cabala, aos aspectos dos Aeons como dito anteriormente e, é claro, as constantes referências ao Livro da Lei.

Ainda que todos estes passos tenham sido dados, reorganização do sistema de graus, a M.·.M.·.M.·., a publicação dos manifestos, Crowley se mostrava desconfortável frente ao fato de ainda haver na O.T.O alto nível de características maçônicas. Crowley estava convicto que: 1) mulheres não poderiam se iniciar como maçons, apesar de pensar que eram aptas a se iniciarem na O.T.O.; 2) as características dos ritos maçônicos que custavam elaboradas preparações, longo tempo de execução ritual e um linguajar complexo, que seriam inapropriados para a mentalidade moderna; 3) os conteúdos simbólicos já amortecidos dos rituais maçônicos; e 4) Crowley intentava utilizar a O.T.O. como meio de divulgar Thelema.

Por estes motivos Crowley prepara a revisão intensa e completa dos rituais em 1918 de modo que eles pudessem ser aplicados para homens e mulheres incluindo alterações para que estivessem de acordo com os ensinamentos de Thelema. É realizado o “(…) abandono do termo ‘Maçonaria’ e os característicos emblemas, signos, identificadores, etc., dos Graus da Arte. Ele [Crowley] apresentou seus rituais revisados a Reuss para adoção pela Ordem como um todo. Em março de 1919 publicou o seu ‘The Equinox, Volume III, Nº 1’ (O Equinócio Azul), o qual continha uma série de importantes documentos da O.T.O., incluindo: Liber LII: O Manifesto da O.T.O.; Liber CXCIV: Uma Intimação a Respeito da Constituição da Ordem; Liber CI: Uma Carta Aberta a Todos Que Desejam Unir-se a Ordem; Liber CLXI: Sobre a Lei de Thelema; Uma versão revisada da Missa Gnóstica”.

Estes rituais são adotados definitivamente em, aproximadamente 1925, quando Crowley já assume a direção da O.T.O. como o Cabeça Externo da Ordem (O.H.O).

O Liber LII (52), “O Manifesto da O.T.O.” foi baseado no Manifesto da M.·.M.·.M.·. de 1913 e neste “Saudações thelêmicas foram adicionadas, referencia aos oficiais foram atualizadas, (…) os nomes de duas organzações contribuintes foram apagados (a Ordem Rosacruciana e a Ordem Hermética da Golden Down) (…) e a frase ‘Ela [a O.T.O.] de forma alguma infringe os privilégios de qualquer Corpo Maçônico autorizado’ foi adicionada após a listagem de organizações contribuintes, e o anúncio maçônico (..) foi mudado para ‘A O.T.O. , embora uma Academia Maçônica, não é um corpo maçônico posto não serem os ‘segredos’ entendidos da mesma na forma na qual aquela expressão é normalmente compreendida; então de nenhuma maneira conflitos com, ou infração dos privilégios justos da Grande Loja Unida da Inglaterra, ou qualquer Grande Loja na América ou de outra parte que seja reconhecida por ela’ [G.L.U. da Inglaterra]”.

Já o Líber CXCIV (194), “Uma Intimação a Respeito da Constituição da Ordem”, cuja leitura é indicada a todos, assim como os demais Libris citados, fica clara a forma de organização da O.T.O no que diz respeito principalmente aos graus:

2 – Aprenda então que nossa Sagrada Ordem não tem senão Três Graus Verdadeiros, tal como está escrito no Livro da Lei: O Eremita, O Amante e o Homem da Terra. / 3 – Não é senão por conveniência que estes três graus tenham sido separados em Três Tríades. / 4 – A Terceira Tríade consiste nos Graus de Minerval a Príncipe de Jerusalém. O grau de Minerval é um Prólogo para o Primeiro; os graus subseqüentes à Tríade mas pendentes à ela. Nela, a série do Homem da Terra, não há outros além de Três Graus; e esses Três são Um. (Liber 194).

Outro aspecto interessante citado em Liber 194 relaciona-se à proximidade entre governar e servir: quanto maiores os graus, maiores as responsabilidades; a atuação nos graus acima da Tríade do Homem da Terra é dedicada a servir os irmãos e irmãs para a estabilidade e organização da O.T.O e no incentivo ao progresso. Por este texto, retiram-se as ilusões de que iniciar-se e afiliar-se à O.T.O. é apenas um colecionismo de títulos ou ainda receber benefícios: quanto maior o envolvimento e os graus, maiores as responsabilidades.

Theodor Reuss, apesar de impressionado com os ensinamentos de Thelema, a Missa Gnóstica, o Livro da Lei e outros textos como Liber II, “A Mensagem do Mestre Therion”, ainda persistia em afirmar a autoridade Maçônica da O.T.O. Reuss e Crowley, portanto, em 1917 eram os únicos Cabeças Nacionais ativos da Ordem e com o passar do tempo, visto todas as revisões ritualísticas desenvolvidas por Crowley, a seção por ele administrada se afastava gradativamente da Maçonaria. Em 1920 durante o Congresso da Federação Maçônica Universal em Zurique Reuss advoga pela adoção da Missa Gnóstica e não obtém sucesso. A partir desse evento, Reuss distribui inúmeras patentes e já apresentava complicações de saúde. Crowley escreve em seu diário em 27 de Novembro de 1921: “Eu proclamei a mim mesmo como o Frater Superior O.H.O. da Ordem dos Templários Orientais”. Em 1923 Reuss falece. Crowley em uma carta destinada a Charles Stansfeld Jones escreve “(…) na última carta do O.H.O. [Reuss] para mim ele convidou-me a ser seu sucessor como O.H.O. e Frater Superior”. Esta carta nunca foi localizada assim como nenhum documento crível onde Reuss indicasse um sucessor.

Não são claras, portanto, as formas pelas quais ocorreu a sucessão levando Crowley a permanecer como O.H.O. da O.T.O. até a data de seu falecimento. No entanto é observável que as mudanças realizadas nos rituais de modo que se adequassem ao sistema Thelêmico, levou a configuração da Ordem em dois polos diferentes: aquele administrado por Reuss e ainda enquanto O.H.O. cujas as bases maçônicas eram mantidas e outro administrado por Crowley enquanto Grande Mestre Nacional Geral Xº, onde toda as referências maçônicas haviam sido abandonadas, ou Ab-rogadas. Talvez seja este o aspecto mais significativo da história da O.T.O. em relação ao Aeon de Hórus: a revisão dos rituais e o entendimento renovado aplicado aos símbolos e “segredos”. Há muitas discussões sobre a legitimidade e a ética aplicada por Crowley para assumir a liderança da Ordem, mas é fato que estamos aqui, eu e você, estudando Thelema e interessados pela O.T.O. “Sucesso é a vossa prova”: não podemos negar que para Crowley, em relação à atuação e permanência da O.T.O., esta chave tenha sido alcança.

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Datação Thelêmica

O sistema Thlêmico condensou e renovou não apenas os símbolos, os segredos, os sistemas de graus e métodos ritualísticos como também aplica uma nova forma de marcar e datar a passagem do tempo. O Ano de 1904 é considerado o ano Zero, iniciando-se a partir do dia 20 de Março quando o sol entrou em Áries no Equinócio dos Deuses, dando início ao Aeon de Hórus. Este é o ano Novo Thelêmico. O calendário é dividido por períodos de tempo de 22 anos remetendo aos Arcanos Maiores do Tarot. Existem dois ciclos: um Grande Ciclo de 22 anos regido por um Atu específico e um Pequeno Ciclo de 365 dias regido por um Atu complementar. Ou seja, 1904 é o ano 0, remetendo ao Louco, a primeira carta do Tarot. Por 22 anos esta carta marcou o Grande Ciclo. Portanto para 1904, o Pequeno Ciclo também foi O Louco, e em 1905 O Louco e O Magista, 1906 O Louco e A Sacerdotisa e assim consecutivamente até a última carta, quando no ano de 1926 O Louco e O Universo estiveram enquanto regentes, e então, no equinócio de março de 1927 o ciclo se iniciou novamente.

A datação inclui também aspectos astrológicos: os graus da posição do sol e da lua em relação às casas zodiacais, utilizando das nomenclaturas em sua forma latina. Incluem-se também os dias da semana, utilizando a influência dos sete principais planetas: Lunae (segunda), Martes (terça), Mercurri (quarta), Jovis (quinta), Veneiris (sexta), Saturnii (sábado) e Solis (domingo).

Para o registro da data o texto é organizado da seguinte forma:

An (ou seja, ano) V (número romano equivalente ao Atu regente do Grande Ciclo de 22 anos em maiúsculo, neste caso, O Hierofante) iv (número do arcano regente do Ciclo Menor de 356 dias em minúsculo, no caso, O Imperador). Sol in 3º3’33’’ Leo, Luna in 14º29’58’’ Capricorn. Não é obrigatória a inclusão dos graus exatos, e pode ser simplificado:

An V iv, Sol in Leo, Luna in Capricorn. Dies Jovis.

Geralmente inclui-se a data como utilizamos no calendário vigente: 26/07/2018,  companhada do termo era vulgari, era vulgar ou sua abreviação e.v.:

An V iv, Sol in Leo, Luna in Capricorn. Dies Jovis. 26/07/2018 era vulgari.

A datação Thelêmica está longe de ser apenas um ato para diferenciar Aeons: ela trabalha com as influências mágikas das cartas do Tarot, dos signos zodiacais e dos planetas na psique do magista, e tem um sentindo especial para aqueles aplicados nesses estudos e capaz de avaliar as relações entre as influências de um dia específico em suas práticas e treinos, estados emocionais e mentais etc..

 

[1] As constelações de Aquário-Leo para a regência do Aeon de Hórus é significativa em Thelema. No Tarot de Thoth, estes signos zodiacais estão diretamente ligados aos Atus XI, Luxúria (Leão) e XVII, A Estrela (Aquário). O Atu XI é a representação de Babalon sobre a Besta, fórmula mágica aplicada pelo Profeta e Sua Noiva, responsáveis pela abertura do Aeon de Hórus, relacionada à Leão, é a força máxima do Sol. O Atu XVII nos apresenta Nuit, a Deusa que dita através de Aiwass o primeiro capítulo do Livro da Lei. Aquário é regido por Saturno, planeta relacionado à terceira Sephira da Árvore da Vida Cabalística que está relacionada à Nuit e Babalon. Um estudo destas cartas juntamente com leitura aplicada do Livro da Lei e os Comentários redigidos por Aleister Crowley podem contribuir para inúmeras reflexões sobre os aspectos do Aeon de Horus.