Oásis Opus Solis

Vamos Contar-Lhe Um Segredo…

“Vamos contar-lhe um Segredo… Mas você deve jurar que não irá contá-lo para ninguém!”

Com as devidas variações estas são umas das frases-padrão da vida de um Iniciado, seja em qualquer Ordem, Fraternidade ou Sistema. Sempre que alguém une-se a um deles prende-se também a uma série de juramentos a respeito dos Segredos Iniciáticos de seu grupo. Alguns destes segredos referem-se aos próprios Rituais Iniciáticos; outros referem-se a instruções de Graus elevados. Há ainda os segredos cotidianos, dos temas tratados dentro dos círculos restritos de um Corpo Local, Templo ou seja o que for. Tudo isto são Segredos. E a todos estes Segredos é feito um juramento de não divulgação. Infelizmente nem todos compreendem realmente o que vêm a ser estes Segredos e qual a importância de serem mantidos. E, por não compreenderem, terminam por fazer alguma bobagem. Ou, em alguns casos, muita bobagem. Falando mais claramente, dão com a língua nos dentes.

Existem três argumentações básicas para os que rompem com os Segredos Iniciáticos. A primeira é a mais banal: “eu não faço mais parte do grupo então estou desobrigado dos juramentos que fiz”. A segunda já é mais elaborada: “se este determinado segredo já encontra-se publicado para tudo quanto é canto, de nada adianta só eu manter segredo”. E existe, por fim, a desculpa, místico-filosófica, a minha favorita: “não tem problema eu falar/divulgar este segredo pois quem não estiver preparado não vai entender nada mesmo”. Só que a coisa não é bem por aí.

É certo que ninguém faz um juramento a nada e a ninguém. Jura-se algo para alguém ou alguma coisa. Pensando melhor, jura-se sempre a alguém pois jurar para uma pedra me parece algo um tanto quanto tolo. E um juramento é um voto dado sempre de livre vontade; de outra forma ele é automaticamente inválido. Consideremos também que este juramento é feito como parte do relacionamento entre uma pessoa e outra, ou entre uma pessoa e um grupo. Entretanto o que as pessoas não se dão conta que um juramento não é feito para com o grupo e sim para consigo mesmo.

Os Segredos Iniciáticos, de fato, só podem ser compreendidos por aqueles que possuam a vivência (percebam que utilizou-se o termo “vivência” e não “conhecimento”) para tanto. Ler um ritual ou um texto secreto não terá outra valia senão encher a cabeça do leitor de conceitos muitas vezes absurdos ou tolos. Fora isto há ainda o fato de que a leitura de um ritual iniciático também irá tornar, para aquele que leu o ritual, um psicodrama cuidadosamente elaborado em um teatrinho intelectualizado, derrubando qualquer utilidade mágica que este tenha e virando apenas uma “colação de grau”. Assim o sendo, ao se divulgar um Segredo Iniciático, muitas vezes por uma mera reverência ao Ego, seu ou alheio, o que se está fazendo é não apenas romper com um voto aceito de livre vontade mas também um imenso desfavor a todo aquele que poderia vir a, futuramente, desfrutar daquele conhecimento em plenitude de compreensão. Este irá agora resumir-se a uma mera compreensão intelectual. E todo aquele que aventura-se pela Senda dos Mistérios sabe que o intelecto puro é um caminho certo para a perda do caminho. Não que o ritual em si perca sua força intrínseca ou sua simbologia. A potencialidade mágica de um ritual não está nas palavras de seu texto e sim na competência da execução do mesmo. Ler sobre um ritual não é a mesma coisa que participar daquele ritual. Assim, quando alguém divulga um ritual (principalmente um ritual iniciático), quem lê o ritual é quem sai perdendo, em termos mágicos, e quem quebrou seu ritual sai perdendo em termos de honra e dignidade e o grupo ao qual pertence o ritual… Bem, para o grupo a grande verdade é que não faz a menor diferença prática se alguém “de fora” conheceu os textos por meios escusos. O grupo não fica mais fraco magica, moral ou administrativamente.

Outra coisa que deve ser compreendida é que todo juramento iniciático é um compromisso de honra. Muito mais importante que saber se o Iniciado irá ou não divulgar os Segredos de seu grupo é saber se é ou não uma pessoa honrada. Muitos dos que quebram tais juramentos por não mais pertencerem ao grupo esquecem-se de que honra não é algo condicional. Ou se tem ou não se tem. Não dá para não ser maniqueísta neste caso. Pois honra não se negocia; não há barganhas do tipo “serei honrado com eles se ele forem honrados comigo”. Isto porque a honra, quando existe, está na própria pessoa, brilhando esplêndida em seu coração, e funciona por si própria sem ter necessidade de justificativas ou motivos. Assim o sendo, a pessoa honrada irá manter seus votos de Segredo mesmo quando já não mais faz parte do grupo aos quais pertencem tais Segredos. Não por um compromisso de honra para com aquele grupo — quer este grupo mereça ou não — mas sim pelo compromisso assumido consigo mesmo de manter um comportamento honrado.

Finalmente, uma última consideração sobre o porquê de se manter um Segredo Iniciático. Ocorre que, como já foi dito, o que nos leva a revelar estes Segredos, na maioria das vezes, é uma mera satisfanão do Ego. Queremos mostrar que somos sabidos, que temos conhecimentos desconhecidos dos “pobres mortais”, que somos “poderosos”, e por aí vai. A manutenção dos Segredos, mais do que apenas um juramento, é, acima de tudo, uma questão de disciplina. E sem disciplina não se chega a lugar algum como Iniciado. É por isto que não faz menor diferença se todo mundo já conhece ou pode achar estes Segredos em algum lugar. Não importa se o Segredo é algo tão esotérico como o Sentido da Vida® ou algo tão banal como “o céu é azul de dia”. O que importa é que o Iniciado deverá conter o seu Ego e manter aquele Segredo para si por mais que enseje contá-lo ou que seu intelecto arrume mil e duas desculpas para tanto. Manter este compromisso é manter sua própria auto-disciplina. Fica aqui uma frase de Crowley: “restringe a ti mesmo e serás livre”.

Com tudo isto vemos que o mais importante nos Segredos Iniciáticos não é o Segredo em si mas sim a atitude de cada um frente a ele. A escolha, como sempre é nossa: a de um caminho honrado e disciplinado ou a de um escravizado pelas paixões e pelo Ego. Thelema é uma filosofia de liberdade mas não se encontra liberdade sem responsabilidade e maturidade. E os Segredos Iniciáticos, mais do que fórmulas mágicas nos ensinam justamente esta lição.

Autor: Frater Menthu